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O Puritano
Destemido

Os
nomes dos grandes aventureiros ingleses da Era Elizabetana (1533-1603)
se transformaram, através dos séculos, em sinônimos de valor e ousadia.
Foram soldados, marinheiros e exploradores que marcaram com suas
façanhas o pano de fundo do final do século XVI. Foi nesse contexto
que o escritor Robert E. Howard criou o soturno espadachim puritano
chamado Salomão Kane. Assim como Francis Drake e Richard Grenville,
Kane nasceu em Devonshire, oeste da Inglaterra, provavelmente por
volta de 1530. Sabemos pouco sobre o início de sua vida, mas ele
foi criado sob a ortodoxia puritana, uma foram específica de interpretar
as Escrituras. Mas, a julgar por seu domínio do florete na idade
adulta, parece certo que ele começou cedo a aprender a arte da esgrima,
talvez com mestres da época como George Silver ou Austin Bagger.
Considerados hereges perigosos, os puritanos foram perseguidos pela
dinastia Tudor, que governou a Inglaterra durante a segunda metade
do século XVI. Ao perceber que sua terra natal encontrava-se politicamente
inóspita, e possuído de uma natureza irrequieta, Kane começou a
viajar ainda bem jovem. A proximidade dos grandes portos ingleses,
na época das explorações, deu-lhe acesso fácil às rotas marítimas.
Não existem registros das primeiras aventuras de Salomão Kane, mas
ele deve ter visitado a Índia e a China, países mencionados em referências
posteriores. Periodicamente ele retornava à Inglaterra, trazido
por laços afetivos, e foi durante uma dessas estadas que ocorreram
suas primeiras aventuras registradas. Num desses regressos, enquanto
viajava para Torkertown, Kane enfrentou um fantasma num pântano
solitário e fez com que um assassino pagasse por seu crime. Ainda
nesta viagem, ele testemunhou a vingança póstuma de um feiticeiro
executado contra o homem que o havia traído para o rei (A Mão Direita
do Destino/ESC 4). Pode-se inferir que esses incidentes ocorreram
durante o breve governo do rei Eduardo VI, provavelmente por volta
de 1553. Na época, Salomão Kane já havia ganho notoriedade como
um “lutador mais perigoso que um lobo”. Alto, magro e sempre vestindo
trajes escuros, o mestre espadachim já demonstrava as características
peculiares de sua personalidade: um ardente desejo de viajar e uma
convicção quase obsessiva de ser o “veículo da ira de Deus”, um
vingador designado pelo Senhor para punir injustiças, combater o
mal e levar os corruptos a julgamento. A história não tem registro
da chegada de Kane a Torkertown. Sabemos que ele foi novamente para
o estrangeiro, servindo como capitão nas guerras religiosas que
se deflagravam na França. Algum tempo depois, enojado com os “feitos
malignos” que caracterizavam a guerra indiscriminada, Kane renunciou
a seu posto. Vagando solitário pelo interior da França, ele encontrou
uma moça ferida mortalmente a faca, vítima de um chefe de bandidos
chamado Le Loup. Jurando vingança, Kane destruiu o bando de Le Loup
e perseguiu o fora-da-lei numa longa caçada através da Itália e
Espanha até chegar à costa norte da África. Ali, numa terra de morte
e feitiçaria, ele ministrou a justiça com sua espada. Quando voltou
à Europa, Kane viajou por algum tempo pela Floresta Negra, na Alemanha,
onde quase foi morto por um ladrão francês, Gaston, o Matador (O
Clamor dos Ossos/ESC 19). Foi nessa ocasião que Kane conheceu John
Silent, outro aventureiro errante inglês (Salomão Kane/ESC 9). Com
Silent, Kane aventurou-se até o Mediterrâneo, onde combateu corsários
turcos. Capturado, foi condenado a usar grilhões de escravo, remando
as galés do inimigo. Salomão Kane escapou das galés e mais uma vez
retornou à Inglaterra, onde enfrentou e matou um certo Sir Taferal
num duelo de honra. Antes de morrer, Taferal confessou que, anos
antes, havia vendido sua jovem prima Marylin para El Gar, um pirata
bárbaro, a fim de se apossar da herança dela. Para encontrar a jovem
desaparecida, Kane seguiu o rastro de El Gar até o norte da África,
onde o puritano foi novamente escravo durante algum tempo. De lá,
sua busca o levou até a costa ocidental africana. Embrenhando-se
na selva, o aventureiro rastreou Marylin até a cidade perdida de
Negari, o último posto avançado da submersa Atlântida. Kane chegou
a tempo de salvar a jovem herdeira de um sacrifício oferecido a
um deus sombrio pela sedutora porém insana rainha Nakari (Lua de
Caveiras/ESC 131-132). Kane trouxe Marylin de volta à Inglaterra
e em seguida embarcou, juntamente com Sir Francis Drake, para pilhar
navios espanhóis nas Índias Ocidentais. Ele também acompanhou Drake
em sua viagem ao redor do mundo, em 1577/78, mas se indispôs com
o companheiro quando Drake sentenciou Sir Thomas Doughty à morte
por uma suposta tentativa de motim (A Mancha Negra/CS 13). Voltando
à Espanha, Kane soube que a filha de um amigo havia sido estuprada
e assassinada por piratas sob comando do capitão Jonas Hardraker,
também conhecido como Águia do mar. Após uma busca de dois anos,
Kane rastreou Hardraker até uma mansão na costa britânica e mato-u
numa luta a faca (A Vingança Nunca e Tardia/ESC22). Sob o comando
de outro falcão do mar, Sir Richard Grenville, o puritano envolveu-se
em novas pilhagens de navios espanhóis. Quando o Vingança, navio
de Grenville, foi afundado pelos espanhóis em 1591, Kane foi levado
para a Espanha como prisioneiro da Inquisição. Quando conseguiu
fugir, viajou de volta para a África, onde se encontrou com N’Longa,
um feiticeiro de quem havia se tornado amigo durante sua perseguição
a Le Loup, anos antes. Ao saber que Kane pretendia explorar terras
do interior, infestadas de demônios, N’Longa presenteou-o com um
bastão vodu, ornamentado com uma cabeça de gato, de origem e idade
desconhecidas. Algum tempo depois, o puritano encontrou as harpias
da lenda clássica, e achou-as um tanto diferentes de como os gregos
haviam imaginado (Asas da Noite/ESC 32/36). Lutando contra uma pavorosa
Coisa libertada de uma cripta na selva, o paladino inglês descobriu
que se bastão era um artefato de eras pré-humanas, de muitos milhões
de anos atrás, e que em tempos bíblicos tinha sido usado por seu
homônimo, o rei Salomão, para libertar Israel dos filhos do inferno
(Passos Atrás da Porta/ESC 87). Durante esta passagem pela África,
Kane recebeu a visita noturna do fantasma de Richard Grenville,
que o alertou de um iminente ataque de tribos hostis (O Retorno
de Sir Richard/ESC 24). As viagens subseqüentes de Kane estão envolvidas
em mistério. Há rumores de que, durante esses anos perdidos, ele
teria reencontrado os filhos de Negari e, através de distorções
místicas de tempo e espaço, chegado a conhecer o maior guerreiro
de outra era, Conan da Ciméria (Os Cavaleiros da Morte/A Torre da
Morte/ESC 133/134). Finalmente, envelhecido mas ainda bem fisicamente,
Kane voltou a Devonshire em 1610, onde, cansado de viajar pelo mundo,
resolveu se assentar em sua terra natal. Mas não conseguiu se aquietar.
Seduzido pelo chamado da maré e dos ventos marítimos, Kane partiu
para novas aventuras (A Volta ao Lar/ESC 27). E talvez esteja viajando
até hoje.Nota: Além das adaptações citadas neste artigo, algumas
das quais baseadas em histórias inacabadas de Robert Howard, completadas
pelo argumentista que as adaptou para os quadrinhos – como é o caso
de Salomão Kane, já mencionada –, foram também publicadas diversas
histórias originais de Salomão Kane produzidas pela Marvel: A Besta
Maldita de Torkertown/ESC 30, o Dragão do Castelo Frankenstein/ESC
10, Desejo Maldito/ESC 15, Castelo do Vampiro/ESC 72 e Santuário
de Satã/ESC 135.
Por
Fred Blosser.
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