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1) Qual foi sua reação ao tomar conhecimento
de que a Mythos iria publicar Conan e que você seria o editor?
Pra mim, não foi surpresa porque eu já previa
que a Abril não manteria mais a publicação. Na época da criação
das linhas Premium, já se discutia quantas edições de Conan
ainda seriam possíveis produzir com material inédito e a previsão
era de mais dois anos. Contando a saga dos Kozakis, daria
mais tempo, mas acredito que a Abril não considere que a reprodução
em PB de histórias originalmente coloridas resulte em boa
qualidade. Porém, neste caso estou apenas supondo já que,
depois que passei a ser apenas tradutor, eu só ia lá quando
havia alguma reunião e, portanto, não tenho informações suficientes
sobre o que se passa na cabeça de ninguém de lá. Concluindo,
nós soubemos que Conan estaria disponível em setembro do ano
passado porque as vendas não eram significativas para uma
editora de grande porte. Como para uma editora menor as vendas
estimadas deles eram atraentes, eu já previa que o Conan viria
pra cá, e já comecei a estabelecer contatos com você e o Carina
pra começar a busca por material.
2) Você já tinha algum conhecimento sobre o personagem?
Eu leio quadrinhos desde os 7 anos de idade
e conheci o Conan na Bloch. Porém, como a Bloch era uma tragédia
pra publicar quadrinhos, não gostei da revista. Na época que
a Abril adquiriu os direitos, o Jotapê Martins me ligou empolgado
pra passar a informação e falou que eu ia ver o que era o
Conan. Apesar das adaptações e da publicação fora de ordem
cronológica, realmente gostei das histórias. Depois achei
ainda melhor na ESC, mas confesso que foi o primeiro personagem
que me cansou. Eu li até mais ou menos o número 50 da ESC
e, então, desisti da coleção. Nunca fui muito fã de histórias
onde o inimigo é um demônio, porque fica muito desigual um
humano enfrentar um demônio e sempre vencer. Como a temática
principal do Conan sempre envolveu matar demônios ou feiticeiros,
e traçar alguma mulher maravilhosa, acabei cansando. Mas não
estou condenando o personagem nem a criação. Na época em que
desisti, eu já trabalhava no arquivo editorial da Abril e,
com tantas revistas a disposição e tendo de zelar pelas mesmas,
fui mudando minha postura. De fanzoca de quadrinhos, passei
a profissional e, pra que o fanatismo não atrapalhasse o profissionalismo,
me tornei menos fã e mais profissional. Afinal, trabalhar
com gibis passou a ser meu ganha pão. Com isso, aos poucos
fui lendo menos títulos e o Conan não foi o único que saiu
da minha lista de prioridades.
3) Como está sendo desenvolvida a editoração das histórias,
tanto inéditas quanto clássicas?
Eu sigo a regra básica do bom senso. A lógica
pra mim era dar seqüência do ponto onde a Abril parou. Ou
seja, descobrir as republicações da Conan the Barbarian na
Conan Saga e tentar adquirir a seqüência até onde for possível.
Pelo que tenho visto, se as revendas continuarem me arrumando
as revistas que tenho deixado em listas de espera, talvez
eu consiga manter a ordem da Conan the Barbarian até, pelo
menos, o número 100. Mas é claro que, nessas Conan Saga, também
saiam muitas republicações de grandes histórias da Savage
Sword já antigas que merecem ser revistas ou conhecidas por
quem nunca as leu. O problema é o espaço. Se em algum momento
entrarmos com alguma delas, a revista não terá espaço pra
alguma história da CB. O segundo passo da programação editorial
foi começar a descobrir o que a Abril nunca publicou. Trocando
e-mails com você, o Carina e o Dionísio, eu descobri uma boa
parcela de histórias. A grande encrenca nesse caso é conseguí-las.
Essas da Conan colorida de 1995 até que foi fácil por serem
recentes. Mas a saga dos Kozakis, pelo que estou constatando,
será muito difícil. As primeiras histórias até que são facilmente
localizáveis. Mas já deixei as últimas e a seqüência final
da SSC em listas de espera desde fevereiro, e até agora as
revendas não conseguiram nada. Se eu não conseguir a saga
completa, não sei se vai dar pra aproveitar esse material
inédito. Também há limites de orçamento. Eu não posso sair
comprando em dólar sem critério. Ou seja, faço um pedido de
revistas, a editora me reembolsa e só vou fazer outro quando
já tiver aproveitado uma parte do material inicialmente adquirido.
Por esse motivo, ainda não importei nada da saga dos Kozakis.
Algumas das revendas que acesso permitem que eu reserve revistas
por três meses. Com isso, tenho mais dois meses de garantia
das primeiras histórias dos Kozakis. Quando finalmente estiver
com essas revistas em mãos vou verificar se as histórias pelo
menos se fecham em pequenos arcos. Assim, se eu não conseguir
a saga inteira, ao menos as revistas que chegarem poderão
ser aproveitadas.
4) O futuro de Conan no Brasil é preocupante?
As vendas não foram nenhum espetáculo, mas
como já mencionei, para uma editora de porte médio, são satisfatórias.
Se o título permanecer nesse patamar, não há risco de cancelamento.
Se as vendas caírem, aí sim o futuro de Conan está ameaçado
porque a revista simplesmente não estaria resultando em absolutamente
nenhum lucro. Sinceramente? Pela dor de cabeça e toda essa
dificuldade que está sendo preparar cada número desse título,
eu acho que o ideal seria que ele vendesse pelo menos 30%
além do que está vendendo porque o meu tempo está sendo consumido
em demasia, e outras revistas que produzi, inclusive de personagens
totalmente desconhecidos, obtiveram um resultado melhor sem
me ocupar tanto. Ou seja, se os fãs de Conan continuarem abandonando
o personagem o título não tem como sobreviver. Espero que
essas primeiras histórias inéditas, mesmo não sendo verdadeiras
obras-primas, possam trazer de volta alguns dos leitores perdidos.
Agora, se não acontecer isso, compromete o futuro. Como eu
posso pedir pra importar mais material se os leitores não
respondem? Nenhum diretor de empresa permitiria. A decisão
mais lógica nesse caso é que o chefe desista do título que
não atrai mais leitores e passe a aproveitar seu editor em
outras publicações que atingem mais leitores. Não estou querendo
aqui deixar ninguém apavorado. Acho que Conan vai continuar
nas bancas, no mínimo, até o final deste ano. Porém, quero
que todos os leais fãs do cimério se conscientizem da realidade
porque muitos não têm a menor idéia da situação e acreditam
que Conan tem uma legião imensurável de fãs. Sem brincadeira,
tem gente que chegou a me mandar e-mails irados garantindo
que Conan tem cerca de 100 mil leitores. Quando eu respondia
tentando mostrar a realidade, alguns me criticaram alegando
que eu estava por fora e nem deveria editar o título, que
o herói tem no mínimo 40 mil exemplares garantidos por mês.
Talvez até seja, mas nem um terço deles ainda compra a revista.
Os outros devem viver relendo suas coleções. Por isso, a esperança
é que o terceiro filme realmente saia e seja MUITO, mas MUITO
BOM. Se for nojento como o seriado de TV e o desenho, só vai
servir pra sepultar de vez o personagem. Se for bom, pode
atrair novos leitores e originar uma nova revista no exterior,
o que seria ideal pra nós. Até o nosso projeto de produzir
histórias no Brasil só será viável se as vendas subirem os
30% que mencionei. Vamos todos aguardar e torcer.
5) Existe alguma possibilidade das histórias serem produzidas
no Brasil?
Como mencionei no final da resposta anterior,
somente se a margem de venda subir, pois o custo de produção
nacional será meio alto e o trabalho da editora vai aumentar
mais ainda, já que tudo, do roteiro às capas, tem de ser aprovado
pela Conan Properties, tornando o processo de produção ainda
mais lento.
6) E quanto às histórias espanholas?
Já não sei o que dizer. Eu estabeleci contato
com o representante do Sword Studios e pedi pra ele me passar
informações. Preciso saber quanto eles querem pelas histórias
e se eles possuem as mesmas em CDs. Só que eles não responderam
mais. Mais uma vez, o custo desse material é que vai definir
se é viável ou não, de acordo com as vendas da revista. Porém,
como o espanhol não me contatou mais, fica difícil, pois estou
lotado demais de trabalho pra rastejar atrás deles. Já deu
pra perceber que estou irritado e já sem pique de insistir
atrás desse material, né? Lamento, mas estou mesmo, porque
está sendo desgastante tentar fazer esse milagre em particular.
Por isso, espero que os leitores depois não me ataquem achando
que é má vontade de minha parte. Vontade eu tenho de sobra,
mas nem todo mundo tem.
7) As expectativas da editora estão sendo correspondidas
quanto à nova revista Conan - o Bárbaro?
Mais ou menos. A revista vendeu o suficiente
pra ser mantida em bancas, desde que mais fãs não desistam.
Ou seja, a editora pode mantê-la nesse patamar, mesmo sendo
meio baixo quando comparado ao volume de trabalho e o tempo
que ela ocupa um editor (que tem e terá muitos outros títulos
pra produzir este ano). Porém, o ideal mesmo é que as vendas
subam pelo menos 30% pra justificar o tempo que estou dedicando
a esse título. Para que os leitores tenham uma melhor noção
do que estou falando, um exemplar de Conan consegue me tomar
mais tempo do que DOIS de Warlands. E reparem que Warlands
eu estou inclusive traduzindo! Ou seja, Conan dá o dobro do
trabalho. Portanto, precisaria vender duas vezes mais. Se
não fosse um personagem tão tradicional, tão histórico e com
tantos grandes artistas pra se republicar, nem eu acharia
que vale a pena me empenhar tanto em detrimento de outros
ótimos títulos que tenho de produzir. Porém, como Conan é
Conan, em vez de torcer pra ele vender duas vezes mais, estou
torcendo apenas por uma ampliação de 30% na base de leitores.
Está longe do ideal, mas por um personagem histórico, vale
um sacrifício.
8) Alguma mensagem para os fãs do Cimério?
Obrigado a todos que estão escrevendo pra
Taverna, em especial aos que têm enviado sugestões e tentado
descobrir histórias inéditas. Porém, tentem transmitir seu
amor pelo personagem a algum amigo, filhos, parentes. Tentem
criar novos fãs para que o personagem tenha uma vida ainda
mais longa no Brasil. Preferências pessoais à parte, eu sempre
dedico o máximo de mim ao que tenho de fazer, e é o que estou
fazendo por este título. Espero que ele prossiga por muitos
anos, mesmo que eu já não seja o editor, mas também espero
que novos leitores embarquem nessa arte que são os quadrinhos
e no mundo de fantasia e aventuras de Conan. E para isso,
cada um de nós que aprecia HQ tem de se empenhar. Se cada
um conseguir, sem ser um chato, passar a alguém o prazer de
ler quadrinhos, nem que seja pra um amigo por ano, já será
um grande passo.
9) Para encerrar, fale um pouco sobre sua carreira:
Resumidamente, eu leio quadrinhos desde
os 7 anos (tenho 34) e colecionei tudo que surgia nas bancas
dos 7 aos 22. Já tive empregos que não tinham nada a ver com
esse hobbie, mas em 89 fui contratado pela Abril Jovem como
técnico em documentação do Arquivo Editorial. Além de auxiliar
qualquer funcionário em pesquisas, minha função principal
era receber, catalogar e controlar as remessas de histórias
Marvel e DC e, claro, manter em ordem o arquivo de revistas
das redações juvenis e adultas. A partir de 94 comecei também
a traduzir algumas histórias Disney e material de revistas
de atividades como freelancer até que, em 95, fui transferido
para a Redação de Quadrinhos Juvenis como responsável pelo
atendimento ao leitor. Porém, como o Figa já sabia do meu
potencial (tanto que tentou me promover a editor uma vez e
não foi autorizado porque não sou jornalista) passou também
a me aproveitar como um tipo de assistente editorial. Eu participava
da programação de histórias, redigia matérias e notícias para
uma revista eletrônica de um convênio entre Abril e Tec Toy
e, embora sem ser creditado, fui tradutor e editor da mini-série
Star Wars: Dark Empire (Guerra nas Estrelas: O Império do
Mal). Logo depois que fui pra redação, outros estúdios finalmente
abriram os olhos pra mim e passei a traduzir bem mais histórias
de diversos personagens (inclusive, todos os números do Conan
Rei). Como a falta de diploma jamais me permitiria subir na
Abril (e, como estava trabalhando dentro e fora da editora,
me seria impossível arrumar tempo e disposição pra voltar
a estudar com afinco), comecei a pensar em sair e me dedicar
exclusivamente a tradução, pois ganharia mais e trabalharia
um pouco menos. Na ocasião, o meu amigo e editor, Mário Luiz,
tinha contato com pessoas da HBO Brasil e me indicou como
tradutor. Eles me aprovaram e saí da Abril pra me dedicar
somente a tradução para legendas dos canais Sony/HBO. Porém,
eu estava mal estruturado para a agilidade e a demanda que
esse mercado exige e confesso que, antes de me queimar definitivamente,
desisti de ser tradutor freelancer da HBO (embora até hoje
eu lamente não ter me saído melhor ou insistido, já que adoro
seriados de TV) e voltei a traduzir somente quadrinhos no
final de 98. No ano seguinte, o Figa me passou alguns títulos
integrais, como Aranha, Mutantes e o próprio Conan (procurem
em suas coleções os que foram traduzidos por "Estúdio Jun
Fan") e eu trabalhei somente para a Abril até março de 2001,
quando o tal diretor argentino obrigou o Figa a rebaixar o
preço que nos pagava. Como a nova tabela era vergonhosa e
não me permitia sequer honrar meus compromissos mensais, imediatamente
tentei restabelecer contato com outros meios de trabalho,
inclusive enviei um novo currículo para a HBO, mas imediatamente
o Helcio e o Dorival me convidaram pra ser editor. Apesar
de só ter editado o Star Wars em toda a minha vida, eu conhecia
o serviço de cabo a rabo e nem hesitei em encarar a nova função.
E eu nem imaginava que a Myhos já estava com vários Elseworlds
sob contrato. Depois que entrei, muito mais do que traduzir
e editar, eu ganhei uma chance de desenvolvimento ainda maior
e hoje não só traduzo e edito, como também estabeleço contatos
e negocio futuras publicações com as editoras no exterior.
Ou seja, um evento que chegou a me apavorar, que foi a perspectiva
salarial ridícula que o gringo da Abril impôs aos valorosos
profissionais da produção editorial, sem os quais nenhuma
revista chega com qualidade às bancas, acabou me catapultando
a algo muito melhor. E praticamente consolidou um fato que
a Abril jamais sonhara, que seria a existência no mercado
nacional de um concorrente poderoso como é a Mythos Editora,
onde estou muito bem e, embora minha paixão profissional ainda
seja traduzir e adaptar as histórias, continuo fazendo muito
mais do que gosto. Posso trabalhar como um desesperado, mas
enquanto me aprovarem por aqui, acho que estou no lugar certo
e nem penso em sair tão cedo.
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